A MEDIUNIDADE SOB O ASPECTO CIENTÍFICO

por Regina Maria Pereira Aust, Teóloga
graduada em Teologia Espírita pela
Faculdade Dr. Leocádio José Correia-
FALEC, pesquisadora do Espiritismo

A Doutrina Espírita foi codificada por Allan Kardec e interpretada através da Ciência, da Filosofia e da Religião. O Espiritismo é a manifestação da Doutrina dos Espíritos e possui dentro do seu corpus doutrinário a comunicação com os espíritos desencarnados.

Dentro das manifestações mediúnicas recomenda-se o estudo e a pesquisa, ampliando assim, os horizontes do conhecimento. Com o propósito de buscar um paradigma científico sobre a mediunidade é necessário a pesquisa continuada no meio acadêmico, dando sustentabilidade ao tema. “O conhecimento científico se renova todos os dias pelo processo da revisitação crítica, que o cientista opera nas sentenças do conhecimento.” (CRUZ, 2005 p.63)

A mediunidade é formada a cada encarnação, habilidades e capacidades, em níveis diferentes para cada indivíduo. O fenômeno anímico dentro da manifestação mediúnica vai estar evidente, pois significa a força dominial do homem, e o médium apresentará toda sua potencialidade.

“A Doutrina dos Espíritos entende que a mediunidade é sempre potencialidade do espírito; no entanto, não há produto mediúnico sem equilíbrio biomático do organismo do médium.” (CRUZ, 2001 p.67)

Assim sendo, surge a preocupação em aprofundar o estudo da mediunidade cientificamente e de modo transdisciplinar. Na transição do século XIX e XX, diversos psiquiatras e psicólogos estudaram a mediunidade, mas além desses trabalhos ficarem desconhecidos, não foi dado continuidade nestas investigações.

As manifestações mediúnicas foram identificadas ao longo da história na grande maioria das sociedades. Dentro das grandes religiões aparecem com Moisés e os profetas hebreus quando recebiam mensagens de Jeová ou dos anjos; na conversão de Paulo às portas de Damasco; Maomé recebendo do Anjo Gabriel as leis que compõem o Corão.

Vale lembrar que aqui no Brasil existe um caldo religioso cultural onde os “transes mediúnicos” aparecem: afro- brasileiros, evangélicos pentecostais, católicos carismáticos e espíritas.

Dessa forma, a retomada dos estudos sobre a mediunidade e melhor entendimento das vivências tidas como mediúnicas, reconhecendo assim as investigações realizadas por alguns pesquisadores. Nesta pesquisa coloca-se em discussão idéias e posições assumidas por pesquisadores acerca da mediunidade.

Por sua vez, alguns dos fundadores da moderna psicologia e psiquiatria, tais como: James, Janet, Myers e Jung que produziram material a respeito do tema.

William James (1842-1910) considerado um dos cinco psicólogos mais importantes de todos os tempos, filósofo pragmatista, fundou na Universidade de Harvard, o primeiro laboratório americano de psicologia. Escreveu sobre os aspectos da psicologia humana, do funcionamento cerebral até o êxtase religioso, da percepção à mediunidade psíquica.

James esteve em contato com a Society Psychical Research de Londres e pelo seu prestígio deu respeitabilidade à pesquisa psíquica. Ele dizia que o verdadeiro pesquisador, mesmo considerando fenômenos absurdos, deve enfrentá-los, pensá-los e correlacioná-los.

O autor não entendia que cientistas, as pessoas mais capacitadas, recusavam-se investigar os fenômenos. Com o intuito de investigar a mediunidade, James pesquisou por mais de duas décadas a famosa médium do século XIX, Leonore Piper. (JAMES, 1909)

Segundo o autor, considerou que a predisposição para essas vivências mediúnicas não seria algo incomum. Ele asseverou ainda, que investigar o “transe mediúnico” é tarefa árdua por ser um fenômeno complexo.

De igual forma, considerava a “possessão mediúnica” uma forma natural e de personalidade alternativa e muitas vezes, sem nenhum sinal de problemas mentais. Para o autor, existiriam explicações possíveis para os fenômenos, ditos mediúnicos, tais como: a fraude, a dissociação com uma tendência a personificar uma outra personalidade ou influência de um espírito desencarnado. (JAMES, 1909)

James permaneceu indeciso sobre a questão da alma pessoal, entretanto, realmente sentia que havia algo além da identidade individual. Achava haver um continuum de consciência cósmica…

Outro importante psicólogo a pesquisar sobre a mediunidade foi Pierre Janet (1859-1947). Janet, formado em psicologia e psiquiatria na França, é reconhecido como fundador das modernas visões sobre dissociação. Em seus estudos sobre a mediunidade e o Espiritismo, o autor aborda “desagregações psicológicas” observando experimentalmente médiuns.

Para Janet quando a personalidade humana perde sua coesão, uma parcela dela mesma pode desprender-se do conjunto e dar origem a diversos automatismos motores e sensoriais, tais como: anestesias, catalepsia, sonambulismo, escritas automáticas, seriam formas de “desagregação psíquica” (FAURE, 1973)

Por sua vez, Frederic W. H. Myers (1843-1901) não teve formação em psicologia, mas sim, em literatura clássica e foi professor de cultura clássica na Universidade de Cambridge. Poeta inglês, e em 1882, fundou a Sociedade Psychical Research junto com outros pesquisadores de Cambridge, com o objetivo de investigar sobre telepatia, hipnotismo, assombrações e alucinações, contando para isso com vários médiuns.

A sua grande contribuição foi, a investigação do inconsciente que Myers denominou “self subliminal”. Ele sustentava que o self consciente (self supraliminal) não representava toda a mente, mas existia “uma consciência mais abrangente, mais profunda, cujo potencial permanece em sua maior parte latente.” E para nominá-la usou a palavra subliminal, designando “tudo que ocorre sob o limiar ordinário, fora da consciência habitual.” (MAYERS, 2001 p.6-7)

Para o autor, existiria continuamente toda uma vida psíquica de pensamentos, sensações e emoções, que raramente emergem. Quando emergem são faculdades das quais não há conhecimento prévio, e essas habilidades envolveriam uma grande ampliação de nossas faculdades mentais, tais como: inspirações dos gênios, telepatia, clarividência e também a comunicação com os desencarnados.

Em pesquisas experimentais sobre a mediunidade, utilizando vários médiuns, Myers observou que, a maioria das manifestações consideradas mediúnicas, seriam da emergência de conteúdos do self subliminal do próprio médium. Evidências, que o sensitivo teria obtido por telepatia, carividência, e ao final de suas investigações comprovando a comunicação telepática entre indivíduos encarnados; abrindo assim a possibilidade da comunicação entre encarnado e desencarnado.

“As investigações nessa área envolveriam uma grande complexidade, pois uma mesma comunicação mediúnica pode conter alguns elementos da mente do médium e outros obtidos telepaticamente, tanto de encarnados como do espírito desencarnado comunicante.” (MYERS, 2001 p. 337)

De igual forma, o autor Carl Gustav Jung (1875-1961) que foi um dos maiores psiquiatras do mundo e fundador da escola analítica de psicologia, mostrou interesse em suas pesquisas pela mediunidade. Sua vida esteve marcada por experiências pessoais envolvendo fenômenos de clarividência, sonhos premonitórios e psicocinesia.

Em 1902 publicou uma dissertação para obter o título de médico: Sobre a Psicologia e a Patologia dos Fenômenos Chamados Ocultos. Neste trabalho contou com sua prima de 15 anos, médium, para essa investigação que teve a duração de um ano.

Jung a princípio concorda com Janet sobre considerar uma personalidade subconsciente manifestando automatismos. Para Jung haveria uma desagregação de complexos psíquicos que se manifestariam como individualidades, dependendo da predisposição do médium.

Jung afirma também sobre uma manifestação importante do inconsciente do médium, mas não excluindo a possibilidade de uma origem paranormal; e inclusive, a real comunicação de um espírito desencarnado.

“Aqueles que não estão convencidos deveriam ter cautela em assumir ingenuamente que toda a questão dos espíritos foi resolvida e que todas as manifestações deste tipo são fraudes sem sentido. (…) Eu não hesito em declarar que tenho observado um número suficiente de tais fenômenos para estar completamente convencido de sua realidade.” (JUNG, 1977)

Outrossim, a descrição do fenômeno e a não atribuição ao desconhecido – ao espírito desencarnado, é proposto por Bozzano quando fala que a resolução do problema da sobrevivência do espírito humano desencarnado, seria o estudo dos poderes do espírito humano encarnado.

Também enfatiza essa hipótese Aksakof que foi o primeiro a escrever da extrema dificuldade de se comprovar a realidade de uma comunicação mediúnica, uma vez que grande parte das manifestações espíritas poderia ser atribuída a ação do inconsciente do médium. Por isso, ele denominou esses fenômenos de anímicos.

O processo mediúnico será sempre o consentimento dos agentes que o compõe e ainda, um cruzamento de códigos de conhecimento entre os envolvidos. “O produto mediúnico, resultante da superação, produz diversidade, promovendo alteralidade nos diversos segmentos do conhecimento humano.” (CRUZ, 2003 p.71)

Ainda segundo o autor, a participação do agente mediúnico significa que o processo enzimático do médium sofre alterações, faz produções, mas depende da consciência e dos objetivos a que ele se propõe.

Em conseqüência, a ciência espírita deve colocar e estruturar a experiência espírita na metodologia científica; pois, a pesquisa sistemática empírica espírita trará repostas significativas. “(…) esses resultados farão subsídios teóricos para diversas questões teórico-práticas, ao mesmo tempo em que sustentarão novas pesquisas, produzindo um dinamismo intenso e de profunda envergadura em toda a causa espírita.” (CRUZ, 1999 p.65)

A Doutrina Espírita não trabalha com consciência, inconsciência e subconsciência, por não permitir o desvirtuamento no que diz respeito, a total responsabilidade do espírito encarnado em todas as suas ações. “Os espíritos ensinam que ao reencarnar o espírito vai, através das diversas experiências a que fica submetido no decurso do processo reencarnatório, acessando os códigos de registro que mantém no seu próprio ser.” (CRUZ, 1999 p.60)

Por conseguinte, estudando a mediunidade com o auxílio da psicologia, podemos tentar explicar o fenômeno anímico, no existente em repouso, em trânsito e o revelado. Existente em repouso: que corresponde a todas as encarnações vivenciadas e que permanecem registradas, prontas para serem acessadas; Existente em trânsito: que compõe todas as percepções e aprendizados durante a encarnação atual; Existente revelado: que diz respeito ao momento presente, construção do cotidiano.

Conforme as explicações do autor sobre o existente, podemos dizer que muitas vezes, as habilidades de um espírito aparecem numa manifestação mediúnica. O médium associa o passado do existente em repouso, com o aprendizado do existente em trânsito e se revela, gerando uma manifestação anímica, do próprio espírito encarnado.

Dado o exposto, é necessário dar continuidade nas investigações científicas sobre a mediunidade. A fim de, pesquisar a fenomenologia, mas principalmente e em conjunto, o perfil físio-bio-dínamo-psicossocial do médium.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, A. M.; LOTUFO NETO, F. artigo: A mediunidade vista por alguns pioneiros da área mental (www,scielo.br)

CRUZ, M.R. Cadernos de Psicofonia de 1995, Doutrina Social Espírita (pelo espírito Antonio Grimm). Psicofonado pelo médium Maury Rodrigues da Cruz. Curitiba: Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas – SBEE, 2003

______ Cadernos de Psicofonia de 1997, Doutrina Social Espírita (pelo espírito Antonio Grimm). Psicofonado pelo médium Maury Rodrigues da Cruz. Curitiba: Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas – SBEE, 1999

______Cadernos de Psicofonia de 2000, Doutrina Social Espírita (pelo espírito Antonio Grimm) Psicofonado pelo médium Maury Rodrigues da Cruz. Curitiba: Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas – SBEE, 2001

______Cadernos de Psicofonia de 2004, Doutrina Social Espírita (pelo espírito Antonio Grimm). Psicofonado pelo médium Maury Rodrigues da Cruz. Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas – 2005

FAURE, H. Avat-Propos.In: Janet,P. L Automatisme Psychologique: Essai de Pychologie Expérimentale sur lês forme inférieures de l activité humaine. Centre National de La Recherche Scientifique, Paris, 1973 (1889)

JAMES, W. Reporto n Mrs. Pipers Hodgson-Control. Proceedings of the American Society for Psychical Research, vol.lll, 1909

JUNG, C.G. Psychology and Spiritualism. In: Jung, C. G. Collected Works, vol. XVIII, The Symbolic Life. Routledge & Kegan Paul, London, 1977

MAYERS, F.W.H. Human Personality and its Survival of Bodily Death, (1903). Hampton Roads Publishing Company Inc, Charlottesville, 2001

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